Aconteceu. Foi bom enquanto durou. Momentos muito bons. Acontece que tu já está acostumada, já está caminhando novamente, conseguiu esquecer, tanto das coisas boas, quanto das ruins. Aí que está o perigo. Com o tempo tu vai
ficando anestesiada. Tão anestesiada que não sente mais: nem as ruins.
Essa época
de final de ano, Natal, férias, praia, lembranças. Nem tanto do grande, mais é
do pequeno. E a lembrança vai virando uma falta. Sei que ela não deve ser
alimentada. Mas é impossível não lembrar de como foi gostoso, das brincadeiras,
dos risos, da diversão, dos filmes na cama, das pipocas, da bola na Redenção,
de andar de bicicleta, da Tia do Porquinho, lá do início. A sensação de que
vivi uma peça por pouco mais de dois anos. Onde eu tinha uma família, uma casa,
um filho que não eram meus, mas era como se fossem. Eu acreditei de verdade que
eram. E mais, eu vivi uma realidade que eu sonhava. Vivia o futuro, como se já
existisse, com Cecília, Mais Um e os cachórros. Até o pinguim, que também
deixei pra trás.
Agora é
deixar que as lembranças sejam apenas lembranças e fiquem lá. Guardadas.
Aconteceu tudo o que aconteceu. O que foi bom, aconteceu. Mas o que foi ruim,
também. Não devo me esquecer disso. Não posso me esquecer de como fui tratada,
de tudo o que aconteceu. Tenho que manter tudo vivo na minha mente, de forma
que não me atrapalhe, que me deixe continuar, e que eu não esqueça, pra que não
aconteça de novo. Já faz quase um ano. Está mais do que na hora de eu seguir
adiante.
Segui, e
consegui, em algumas coisas. Aconteceram coisas que me fizeram trocar o apartamento
por um carro. Eu ficar mais tempo em casa, acompanhando minha mãe, a questão da
falta de dinheiro e da facilidade que um carro traria para conseguir outro
emprego e guardar dinheiro para, dai sim, comprar o apartamento. Então comprei
o carro. E consegui outro emprego. Agora continuo trabalhando todas as manhãs
no meu antigo emprego e noites alternadas no hospital.
O que posso
dizer... Tá cansativo. Mas, tem seu lado bom. Estou conseguindo pagar minhas
contas, estou mais independente e vencendo alguns medos, tenho dirigido
bastante, no mínimo, o trajeto Campo Bom - Novo Hamburgo todos os dias. E dessa
forma, quando não estou trabalhando, estou durmindo. Assim não tenho tempo pra
pensar nem pra gastar dinheiro com coisas inúteis. Trabalho e durmo num dia.
Trabalho, emendo os dois trabalhos e durmo no outro.
Assim tem
sido minha vida. Tá na hora de esquecer? Sinceramente, acho que eu nunca vou
esquecer. Não era dessa vida, lembra?
Mas então, o
que fazer? Lembrar. E nunca relembrar. Aconteceu, lembrar do que foi bom como
algo que passou. Passado. E que lá deve ficar.
Seguir em
frente? Acho que vou continuar assim. Estou seguindo em frente, sozinha, mas me
fortalecendo e ficando cada vez mais independente. Assim que vou ficar.
Sozinha, mas feliz.
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