E já vai pra
quatro meses. E o que sinto vem em ondas. Na primeira senti algo parecido com
desprezo, nojo. Na que veio depois senti tristeza. Depois esperança, tentei de
novo, acreditei de novo. Me decepcionei de novo. Dessa vez foi diferente. Mais
calmo. Mais confiante. Parecia certeiro, definitivo. E terminei. Me livrei de
todas as amarras. Decidi começar, finalmente, a pensar em mim. Por mim. Só.
Descobri que estar sozinha não é o fim do mundo. Não é desesperador. Também não
é apavorante. É algo diferente, uma nova experiência. Algumas pessoas viajam
para algum lugar distante, outras fazem uma espécie de retiro espiritual,
algumas um novo emprego, uma nova função, uma nova paixão. Cada um se encontra
de alguma forma. Eu comecei a me encontrar quando achava que estava tudo
perdido. Vamos do começo? Eu era bem nova e acreditei que tinha encontrado o
amor da minha vida. Me entreguei totalmente. Quase quatro anos depois, a
história não acabou muito bem, traições e falta de amor. Talvez fosse cedo pros
dois e ambos se iludiram. Enfim. Passei 7 anos como que inconscientemente
fugindo de compromissos. Um namorado era mais velho, tio de uma amiga, o outro
era mais novo, bem mais novo, amigo do irmão. Nenhum daria em nada. Talvez por
isso permiti que se aproximassem. Talvez esse seja o motivo de só me envolver
com os piores. Tudo isso disfarçado com
aquela fantasia adolescente que o lado mau cria, que o ruim é interessante.
Até que, mais
de 7 anos depois, um desses “caras maus”, que não daria em nada, me cativou de
um jeito diferente. Um acúmulo de situações que me deixaram mais suscetível, a
morte do meu irmão ainda recente, a gravidez de minha mãe e depois a perda dos
bebês, perda de uma amiga. Tudo isso acontecendo e surge um cara que é pai, que
me trata um pouco como pai, me corteja, me adora, cuida de mim, me leva pra
passear e comer batatinha frita, depois fica comigo deitada no colo, me fazendo
cafuné. Passa a tarde na cama comigo ouvindo um show que acontece lá fora. Me
escuta, parece me entender e me apoiar. E, 1 ano 8 meses e 20 dias depois,
depois de muita insistência, vou morar com ele. E daí pra frente, são 8 meses,
exatos 8 meses onde achei que eu tivesse um lar. Achei que eu tivesse dando pra
ele e pro filho dele um lar. Na verdade, agora percebo que não era o que ele
queria e que me iludi. Ele não queria uma casa. O estilo de vida dele é outro.
Ele pode ter "querido querer". Mas não adianta forçar algo quando não é o que o
coração quer. E eu me iludi, com uma casa que não era minha, um filho que não
era meu e, agora sei, um marido que também não era meu.
E não sei bem o
que pensar disso. Ainda vem em ondas. Numa, em que eu penso ainda com nojo de
tudo, com raiva, lembrando do jeito que ele me tratou, das traições, das
limitações, do controle. Em outra, lembro com carinho e saudades, eu gostava de
acordar e passar o dia pra ele. E então vem uma terceira, onde quase tenho pena
e acho que ele tentou, mas meio que me escondia dos outros, ou queria que eu
fosse uma dessas lindezas pra mostrar pros outros que tem do lado nos shows.
Lembro dele me pedindo uma filha, a Cecília, deitado na cama, alisando minha
barriga, criando fantasias. E agora isso me deixa triste. Fantasias ou
lembranças de quando a ex-mulher estava esperando o filho? Ainda é um misto de
sentimentos. Raiva, saudade, nojo, carinho, falta.
Não sei o que
ele pensa, o que ele lembra, se pensa nem se lembra. Não sei se quero pensar
nisso, se quero saber as respostas. Acho que não. Acho que ele tem agora tudo o
que ele quer: liberdade. Pode ser o rockstar, droga, bebida, sexo à vontade.
Sem ninguém pra controlar. E o estranho é que eu nunca controlei. Achei que
estivesse fazendo certo deixando livre. Só exigi uma coisa: nada de drogas. Mas
a bebida, não consegui. Ou não conseguiu.
Até acreditei que a gente tivesse sido feliz por um tempo. Eu achei que, apesar
de tudo, eu era. E fazia ele feliz. Que outra namorada deixaria o gato ir fazer
um show em outro estado, outra cidade, sozinho e ficaria em casa sozinha
esperando ele com a casa limpa, de lingerie nova? Ou esperaria ele voltar de um
ensaio: “Só vou ali e em uma hora tô de
volta”, dai uma mensagem que ia passar num bar com um amigo que tinha se
separado e mesmo assim, ficou ali, esperando e sem reclamar? Que conviveu com
ex-mulher, ex-namorada, ex-ficante, ex-peguete? E nunca nem fez menção de
destratar? Pra mim, se é ex, é ex. Não
tem mais nada. Ou será que ele queria o contrário? Que fizesse fiasco e
ceninhas?
E isso que eu
tenho que acreditar agora. Nisso que eu tenho que pensar. É ex. Ex-namorado,
porque marido nunca chegou a ser. Tenho que
me livrar de toda e qualquer lembrança. Isso tá me fazendo mal, me impedindo de
continuar. Por que daria mais uma chance? Não tem porquê. Ninguém daria. A não
ser que queira continuar sendo daquelas mulheres submissas, que não tem voz, que
não tem vez. Que vivem a sombra de seus maridos, estes sim, que fazem tudo o
que querem. Esses talvez sejam felizes. Mas me lembram dos tiranos, dos
imperadores com suas mil mulheres.
Outra coisa.
Ele não ia querer de novo. Como ele mesmo disse, não tinha nada, contato nenhum
com nenhuma ex. Só com a mãe do filho dele, justamente pelo filho. Outra
mentira. Agora eu sei que sim, ele tem contato com várias ex. Mas, que eu seja
digna! Se pra mim ele falou que não tem contato com ex, e ele me tornou uma ex,
então, não posso ter contato com ele. E, estranho, mas isso de ex só servia pra
ele. Várias das brigas e o que me levou ao status de puta burra foram ex. Por que pra ele ex é ex e pra mim não era?
Ainda naquilo de acreditar em mim, de amor próprio e tudo. Eu tenho que me
valorizar, me respeitar.
Tá na hora de
acordar, de crescer? Então, vamos lá. Toda ess
a história
que tem passado na minha cabeça, de ficar sozinha pra sempre, de não ter filhos
nunca, quem sabe? Que diferença isso faria? Agora, nenhuma. Agora eu tenho que
pensar em mim. Nas minhas coisas. Em fazer a minha vida. Não posso ficar presa
ao passado. Admito que antes, tinha um objetivo, tinha porquê fazer tudo o que
eu fazia. Era bom. Mas, se não era bom pra todos... Talvez seja mesmo melhor
assim. Depende do que farei daqui pra frente.
Sei que não
posso me deixar abater. Sei que não posso me entregar. Sei que a carência ainda
vai bater forte, e vou sentir vontade de fazer muita besteira. Mas sei também
que eu tenho que me controlar. Que só eu posso controlar minha vida. E que sei
o que eu devo fazer.
É só fazer, né?
Não é tão fácil. Mas, é um começo. Saber por onde ir. Saber o que vai
acontecer, o que pode acontecer. Então, só cabe a mim. E vou fazer de tudo pra
seguir em frente. Pra fazer a minha vida. Pra acertar nas minhas escolhas.
Preciso disso. E vou conseguir.
Ainda vou ser
muito feliz. Sei que o que é meu tá guardado. Basta eu seguir o caminho e
procurar no lugar certo. Escolhas. Eu escolho caminhar.